14º23’N, 104º40’L
Templo de Preah Vihear
Choam Khsant, Preah Vihear, Camboja
Um templo sagrado, localizado em uma fronteira controversa. Dois países o disputam há décadas, e o embate já descambou para guerra algumas vezes. Em 2025, mais uma vez, a fileira de mortos cresceu dos dois lados.
É, podia ser na Terra Santa. Mas é no Sudeste Asiático. E o conflito, apesar de parecer, não tem nada de religioso.
Trata-se de uma guerra por território que não envolve muçulmanos, judeus nem cristãos, mas dois países de maioria budista. Há tempos, Tailândia e Camboja brigam por causa de templos localizados na fronteira.
O mais emblemático deles é Preah Vihear, um santuário hindu convertido em budista, com mais de mil anos de história. Mês passado, ele virou campo de batalha.
Que lugar é esse
O templo começou a ser construído no século 9º, mas as partes mais antigas que resistiram aos dias atuais são do século 10º. Dedicado a Shiva, uma das principais divindades hindus, ficava no centro do antigo Império Khmer.
Ou seja, se havia alguma treta relacionada a Preah Vihear, não era por causa de fronteira. Isso só começou a aparecer bem mais tarde, no século 20.
Em 1904, o Reino de Sião, antigo nome da Tailândia, e os governantes franceses que controlavam o Camboja reuniram-se para delinear a fronteira entre os países, nos Montes Dângrêk. Chegaram a um acordo, que seguia primordialmente as bacias hidrográficas e colocava Preah Vihear do lado tailandês.
Três anos mais tarde, os franceses fizeram um estudo topográfico para a confecção de um mapa para delimitar a fronteira. Só que a carta mostrava o templo do lado cambojano.
A confusão estava armada
O Camboja conquistou a independência em 1953, e no ano seguinte tropas tailandesas já trataram de ocupar Preah Vihear. Os cambojanos decidiram então levar o caso ao Tribunal Internacional de Justiça (TIJ).
A corte em Haia decidiu, em 1962, que o local pertencia ao Camboja. A Tailândia deveria desocupar a área e devolver quaisquer artefatos e esculturas que tivesse removido do templo.
Bangcoc não recebeu bem a notícia. Protestos tomaram a capital tailandesa, porém o governo eventualmente aceitou a derrota.
Mas saiu deixando claro sua insatisfação. As tropas, em vez de retirarem a bandeira da Tailândia, arrancaram o mastro e reinstalaram todo o conjunto, com a bandeira ainda hasteada, em um morro ali perto, já do outro lado da fronteira.
Em 1963, em uma cerimônia liderada pelo próprio rei Norodom Sihanouk, que fez oferendas aos monges budistas locais, o Camboja retomou, oficialmente, Preah Vihear. Cerca de mil pessoas encararam a árdua subida para participar do evento.
O rei, em um gesto de pacificação, anunciou que cidadãos tailandeses não precisariam de visto para cruzar a fronteira e visitar o templo. Além disso, a Tailândia poderia manter os artefatos que tomou.
Khmer Vermelho
Ainda no começo dos anos 1960, o grupo comunista Khmer Vermelho iniciou uma rebelião no país. Em 1970, um golpe de Estado, apoiado pelos Estados Unidos, depôs Sihanouk, que, no exílio, se aliou ao Khmer Vermelho.
A guerrilha ganhou força, e em 1975 ocupou o templo. No mesmo ano, tomou a capital, Phnom Penh. Em 1976, seu líder, Pol Pot, iniciaria um regime de terror, um dos capítulos mais horrendos da história do século 20.
A transição para a democracia começou em 1990, mas o templo seguiu como um dos derradeiros bastiões de resistência do Khmer Vermelho. Em 1998, os últimos guerrilheiros negociaram a rendição em uma reunião dentro de Preah Vihear.
Com a volta da democracia, o Camboja deu alô ao mundo. Seu magnífico patrimônio cultural passou a entrar na rota do turismo mundial.
Em 2008, o país começou a ampliar sua lista de templos e ruínas protegidos com a grife da Unesco. Até então, somente Angkor, um dos sítios arqueológicos mais famosos da Ásia, era considerado patrimônio da humanidade.
Justamente Preah Vihear foi o segundo lugar a entrar na lista (hoje, o Camboja tem cinco patrimônios da Unesco). A organização se rendeu à arquitetura excepcional do complexo, bem como ao estado de conservação.
Porém, o novo status irritou os tailandeses. Mais uma vez, eles voltaram a ameaçar tomar o templo.
Novas tensões
Em 2011, pelo menos 20 pessoas morreram e milhares abandonaram suas casas quando a violência na fronteira recomeçou. Dois anos depois, o TIJ decidiu de novo a favor do Camboja. E, de novo, a Tailândia não gostou.
O clima nada amigável seguiu em banho-maria, até que o caldo entornou mais uma vez em 2025. Com o mundo prestando atenção às guerras de sempre, Preah Vihear virou um campo de batalha.
Em julho, conflitos armados estouraram tanto no complexo quanto em Ta Muen Thom, localizado a 150 quilômetros de distância. Esse templo também é um antigo santuário hindu milenar, cercado pela selva e posicionado entre as rotas militares que serpenteiam os dois lados da disputada região.
Em seis pontos da fronteira, houve ataques de ambos os lados. Cambojanos lançaram foguetes contra uma vila tailandesa, matando civis. Jatos tailandeses bombardearam bases militares cambojanas.
O governo do Camboja alegou, nas redes sociais, que o país vizinho começou a guerra ao ordenar o fechamento do templo e abrir fogo contra soldados. O ministro da cultura disse que Preah Vihear sofreu severos danos, causados pelos ataques tailandeses.
“Para o Camboja, Preah Vihear representa um símbolo sagrado de sua herança do Império Khmer”, segundo um artigo publicado pela agência de notícias italiana Pressenza. “Para a Tailândia, é parte insubstituível de seu imaginário nacional.”
Os governos de ambas as nações veem nos templos um mecanismo poderoso de legitimação. Na Tailândia, a coalizão instável e cheia de crises internas que comanda o país vem inflando o nacionalismo territorial para ganhar apoio da população.
No Camboja, o primeiro-ministro, desde 2023, é Hun Manet, filho do homem que por mais tempo chefiou o governo no país, Hun Sen. Nesse contexto, continuidade e tradição são o norte, e a defesa do patrimônio histórico tem peso de luta primordial pela soberania.
Os dois governos usam os templos como marcadores geográficos e, especialmente, como monumentos que lhes conferem legitimidade política. São disputas de narrativas de identidade.
É uma guerra por símbolos – e eles sempre têm algo a contar. Não espanta que o Camboja seja o único país do mundo a ter um templo na bandeira, Angkot Wat. Pois é, nem o Vaticano, que é, praticamente, um templo com status de país, tem a Basílica de São Pedro na bandeira. Mas o Camboja tem.
Os conflitos de julho deixaram pelo menos 12 mortos, dezenas de feridos e dezenas de milhares de deslocados. Vilas esvaziadas, hospitais danificados, escolas fechadas completam o cenário de guerra.
O Camboja pediu a intervenção urgente e uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Tailândia acusa o rival de violação territorial e agressão civil.
As feridas coloniais seguem abertas nessa fronteira que foi, possivelmente, mal demarcada. Tudo por Preah Vihear, um templo erguido eras atrás, séculos antes de tudo do que se disputa hoje sequer existir.
Fonte: https://www.uol.com.br/nossa/colunas/terra-a-vista/2025/08/25/2025-em-guerra-ate-templo-budista-vira-campo-de-batalha-de-paises-rivais.htm