“Você tem a melhor profissão do mundo”, é o que sempre ouço quando digo que sou jornalista gastronômico. Viajo muito para comer e depois escrevo sobre as histórias que encontro na mesa. Parece um sonho, né?
Nem Tudo é Glamour
Mas, como qualquer trabalho, tem seus desafios. Explicar que também é trabalho e que existem partes menos prazerosas é difícil. A ideia de comer muito e sempre tira a atenção das pessoas dos perrengues que a profissão tem.
Recentemente, o crítico de vinhos do Observer, um grande jornal inglês, escreveu sobre isso. David Williams comparou provar vinho profissionalmente a uma rotina quase clínica: centenas de amostras, cuspidores, luz branca e muita concentração.
“O cuspidor é nosso capacete, nosso cinto de segurança. Sem ele, estaríamos mortos ou bêbados o tempo todo”, relata. Ele fala sobre a exaustão e tensão após longos dias de prova. Mesmo cuspindo, o álcool é absorvido e o fígado sofre.
“É como pedir para o fígado apanhar sem sentir os efeitos prazerosos de beber”, escreve. Os taninos corroem o esmalte dos dentes. Williams já perdeu quatro molares por ser um “provador profissional”.
Desafios da Profissão
Williams também fala sobre alcoolismo e comportamentos autodestrutivos entre críticos de vinho. Descreve cenas embaraçosas e perturbadoras de embriaguez pública em eventos.
“O vinho é ao mesmo tempo objeto de estudo e vício, um ciclo de fascínio e dependência intelectual e sensorial”, diz ele.
Comida Também Tem Seus Custos
Para quem come, o desafio físico é constante. Não dá para cuspir comida, claro. É preciso mastigar, sentir a textura, os sabores e engolir.
No início de 2024, Pete Wells, crítico de restaurantes do The New York Times, fez um check-up e recebeu um diagnóstico alarmante: colesterol e glicemia altos, hipertensão, risco de pré-diabetes e fígado gorduroso.
Diante dos resultados, ele pediu para deixar de ser crítico, embora continue como jornalista. Em sua carta de despedida, ele refletiu sobre o custo físico e psicológico do ofício.
“A vida de crítico gastronômico, vista de fora como um luxo, esconde uma rotina de excessos, culpa e adoecimento”, escreveu.
“Seu corpo muda com o tempo. Você ganha uma barriga enorme que quer ser preenchida. Todos aqueles sensores no cérebro que clamam por prazer estão em alerta máximo o tempo todo. Você se torna um viciado”, disse Wells.
Adam Platt, também crítico gastronômico em Nova York, disse: “É provavelmente o trabalho menos saudável da América”. Ele tem um batalhão de médicos tratando de gota, hipertensão, colesterol alto e diabetes tipo 2.
Quando deixou a rotina de provar quase todo o menu, Wells sentiu que podia comer apenas o que queria. Dormia a noite inteira e caminhava longas distâncias sem parar em padarias. “Em algum momento, percebi que eu não sou o meu trabalho”, refletiu.
Equilíbrio é Tudo
Para continuar no que muitos chamam de “o melhor trabalho do mundo”, é preciso cuidar da saúde. Passei a ter uma rotina de exercícios, cuidar melhor da alimentação e prestar atenção aos sinais do corpo.
Como jornalista gastronômico, passei a ponderar mais as refeições fora, pedir porções menores e, às vezes, provar pratos sem finalizá-los. Beber, quase sempre em trabalho.
As garrafas de vinho que recebo de presente se amontoam no bar em casa. Muitas vezes, viram presentes para amigos e conhecidos.
Percebi que, para continuar com esse trabalho, não posso deixar que prejudique minha vida ou saúde. Estou com os exames em dia, reconquistei alguns músculos e tenho ainda mais prazer de sair para comer.
Fonte: https://www.uol.com.br/nossa/colunas/rafael-tonon/2025/11/06/figado-sofrido-e-queda-de-dentes-o-lado-nada-romantico-da-critica-de-vinho.htm
