Caracas: Entre Ameaças de Guerra e uma Revolução Gastronômica

As tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela estão em alta. A Casa Branca tem feito ameaças de um ataque iminente, com um arsenal bélico pronto para invadir o país. Isso tem causado um verdadeiro alvoroço no continente.

Voos Cancelados e Retaliação

Sete companhias aéreas cancelaram seus voos para Caracas, o que levou o governo de Nicolás Maduro a revogar as licenças de operação de seis delas, incluindo a GOL, como retaliação.

Enquanto os EUA avançam com seu poderio militar, Maduro não fica atrás. O governo venezuelano tem feito demonstrações de força, como voos de caças em grandes cidades e exercícios de munição na costa do país, para mostrar que não vai ceder facilmente.

Maduro até viralizou nas redes sociais com uma coreografia pedindo pela paz e afirmando que “ninguém o para”. Enquanto os ataques ainda são apenas ameaças, o país tenta manter uma aparência de normalidade: comércios abertos, serviços públicos funcionando e restaurantes em atividade.

Vida em Caracas

Estive em Caracas em julho deste ano e fiquei impressionado com a cena gastronômica. Muitos restaurantes, bares e cafeterias com menus inspirados e mesas cheias de pessoas felizes.

As famosas arepas venezuelanas servidas nas ruas de Caracas – Yuri CORTEZ / AFP (750×1)

A Venezuela é frequentemente retratada como um catálogo de crises: hiperinflação, instabilidade política, escassez e êxodo. Tudo isso é real e pesa na realidade do país. No entanto, essa narrativa dominante obscurece um outro lado da Venezuela, menos visível para quem está de fora.

A Rua Ferve

Durante anos, o jornalismo internacional teve dificuldade em relatar uma Caracas onde convivem restaurantes com menus-degustação acima dos US$ 100 e uma população cujo salário médio não chega a um décimo disso. É uma contradição difícil de traduzir.

Voltei a Caracas três anos depois da minha primeira visita e percebi que algo mudou. Conversas com chefs, bartenders, produtores e moradores revelam uma cidade mais vibrante e resiliente. Alguns até arriscam a palavra “otimista”.

Há um desejo evidente de reconstrução cultural que não aparece nas manchetes, mas pulsa no cotidiano. Muitos que saíram decidiram retornar em busca de reconexão com o país.

Gastronomia em Alta

A gastronomia tornou-se uma das lentes mais nítidas dessa transformação. Bares com identidade forte e serviço impecável surgem em bairros antes pouco movimentados.

O Robusto, por exemplo, poderia estar em Nova Iorque ou Londres. É um bar de charutos e coquetéis de estética minimalista em Las Mercedes, conhecido por atrair uma clientela em busca de experiências de alto nível.

Entre umidores impecáveis com puros raros e uma carta de drinques que alterna clássicos e autorais, o espaço funciona como uma vitrine da nova cena caraquenha: sofisticada, técnica e surpreendentemente internacional.

Em cada esquina, a gastronomia de Caracas reserva uma surpresa. Pequenas cozinhas especializadas mostram que, mesmo num contexto instável, há rigor técnico, ambição e vontade de criar.

Conheci um ramen shop que poderia estar em qualquer esquina moderna de Ginza, mas está ali, encravado numa garagem cool de Chacao. Fazem até os noodles com trigo ancestral venezuelano em máquinas importadas do Japão.

Tomei cafés capazes de surpreender as papilas, em projetos que reposicionam o café venezuelano. Visitei uma fazenda que reinventou a criação de animais para abastecer um restaurante farm-to-table que faria corar muitos chefs que adoram usar o termo sem muita razão.

O Cordero nasceu da necessidade de dar destino a cordeiros machos provenientes de uma fazenda de ovinos e caprinos de alto padrão num país sem tradição nesse consumo.

Cordero, restaurante em Caracas, na Venezuela – Reprodução/Instagram (750×1)

O restaurante transformou uma produção antes sem mercado numa cozinha centrada no cordeiro, com receitas criativas e execução impecável. Tornou-se um dos projetos mais inovadores de Caracas, reconhecido pelo Latin America’s 50 Best como One to Watch.

Comida como Símbolo

Nada disso elimina as contradições. Pelo contrário: evidencia o quanto elas são profundas. Caracas vive um momento em que esperança e precariedade caminham lado a lado. A incerteza ameaça apagar o que a cidade tem levado anos para reconstruir.

A mesma Caracas que reaprendeu a cozinhar, a produzir, a criar e a celebrar está à mercê de um conflito que pode por em cheque um raro movimento de revitalização social do país.

Em meio a porta-aviões se aproximando e aeronaves riscando o céu, a gastronomia tornou-se um símbolo involuntário do que está em risco: a possibilidade de uma vida comum, que agora parece estar ainda mais longe do que sempre esteve.

Fonte: https://www.uol.com.br/nossa/colunas/rafael-tonon/2025/11/28/venezuela-vive-boom-gastronomico-inesperado-enquanto-teme-ataque-dos-eua.htm

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