Em 2017, com o Brasil passando por diversas mudanças, me envolvi em um projeto audiovisual sobre os vinhos da Serra Gaúcha. Embora o projeto não tenha sido um grande sucesso, teve momentos memoráveis, como a entrevista nunca publicada que meu amigo Rafael Spuldar fez com Flavio Pizzato, um dos enólogos mais importantes do Brasil, à frente da vinícola que leva seu sobrenome.
Conversas Sobre Vinhos
Durante a conversa, Flavio destacou que, mesmo com as novas tendências no cenário internacional, ele acreditava que os melhores vinhos vinham das uvas mais maduras, resultando em vinhos densos, encorpados e com alto teor alcoólico, além do aroma característico do carvalho de primeiro uso.
Lembrei dessa conversa recentemente, no lançamento do Guia dos Vinhos 25/26, criado por Suzana Barelli, Beto Gerosa, Marcel Miwa e Ricardo Cesar. Entre os vinhos bem avaliados, estavam três da linha Fausto, da vinícola Pizzato. Esses vinhos, mais acessíveis, mantêm a qualidade característica da vinícola e são uma ótima opção na faixa de preço abaixo de R$ 100.
Vinhos Leves em Alta
Hoje, os vinhos mais leves, que eram uma tendência em 2017, se tornaram a norma. Muitos produtores estão colhendo as uvas mais cedo e usando menos madeira para preservar a pureza do terroir. A Pizzato, por exemplo, continua focada em vinhos mais encorpados, como o DNA 99 e o Concentus, mantendo a tradição e a qualidade que a destacam no mercado.
Desafios e Mudanças
Em uma conversa recente, discutimos como muitos produtores ainda preferem vinhos mais extraídos e sobremaduros, que são vistos como um símbolo de prestígio. Esses vinhos, embora não sejam os mais rentáveis, legitimam a vinícola e atendem ao desejo do produtor de criar vinhos de alto nível.
No entanto, a pergunta que fica é: por quanto tempo essa abordagem será sustentável? A imagem usada foi a de uma ponte que está ruindo, e a escolha entre estar do lado novo ou do lado antigo quando ela quebrar.
Tradição vs. Tendência
Essa discussão me lembra das “Guerras do Barolo” nos anos 90, quando novos produtores adaptaram o Barolo ao gosto internacional, enquanto tradicionalistas como Bartolo Mascarello e Giovanni Conterno resistiram às mudanças. Com o tempo, os tradicionalistas se tornaram ícones da região.
Para mim, o problema é quando todos seguem uma única tendência, prejudicando a diversidade dos vinhos. Se antes tínhamos vinhos com gosto de geleia e madeira, hoje encontramos vinhos desequilibrados na acidez, feitos sem o devido cuidado em nome da “mínima intervenção”.
Reflexão e Esperança
Às vezes, vale a pena esperar a reconstrução da ponte e ver como as tendências evoluem. A relação entre tradição e inovação é complexa, mas essencial para a evolução do mercado de vinhos.
Saideira
Pizzato DNA 99
Esse merlot é intenso, com madeira bem integrada. Aromas de ameixas, mirtilo, frutas vermelhas, especiarias e torrefação. Equilibrado, com taninos finos e encorpado. Um bom vinho que custa R$ 479,80.
Pizzato Fausto Brut
Um espumante feito pelo método tradicional, com notas de panificação, tostado e brioche. Leve, refrescante e com toques de maçã e pera. Custa R$ 78,60.
Fonte: https://www.uol.com.br/nossa/colunas/vamos-de-vinho/2025/11/30/e-melhor-um-vinho-leve-e-barato-ou-um-pretensioso-e-caro.htm
