Desafie Seu Paladar: Experimente Novos Sabores e Supere Preconceitos

Entendo perfeitamente as rejeições naturais que as pessoas têm a determinados alimentos. Não dá para reduzir tudo a mera frescura.

Rejeições Naturais

Alguns não suportam coentro – mas isso acontece porque há uma rejeição química por parte do corpo. Outros não toleram a textura de língua bovina, por razões físicas do palato, mesmo sem saber que bicho estão comendo. Há quem tenha aversão ao aroma da manga, à fragrância da jaca, ou ao inofensivo mamão: e simplesmente nasceram assim, tendo ânsias só de senti-los.

Memórias e Bloqueios

Existem também bloqueios trazidos pela memória – como quem não pode nem chegar perto de vodca (ou outro destilado) porque a bebida dispara recordações amargas do primeiro e quase fatal porre da adolescência.

Ok. Mas ainda assim, tento sempre incentivar as pessoas a tentar. A provar. Mesmo porque as coisas podem mudar, e cada novo paladar adquirido é uma pincelada a mais de alegria na paleta da vida. Minha experiência com meus filhos tem mostrado que com o tempo, mesmo as aversões físicas podem mudar – o corpo muda. Então sempre proponho que provem algumas vezes. Podem surgir belas descobertas.

Preconceitos Alimentares

Além disso, certas experiências mostram que muitas vezes o que existe não é aversão física, mas puro preconceito.

No Brasil, país onde uma elite de novos-ricos cafonas sucedeu uma elite escorada em riqueza e vagabundagem hereditárias – ambas usando sua influência e poder para emburrecer a população a elas submetida -, sobreveio ainda o fenômeno que eu poderia chamar de “gastrofobia social”, o preconceito de classe aplicado à comida.

Daí surge um país pobre onde a classe média aprendeu que filé mignon é bacana (porque raro e caro), e miúdos são abjetos (coisa de pobre). Que legumes simetricamente esculpidos por agrotóxicos são gostosos; e vegetais apresentados em sua bela brutalidade natural terão gosto ruim (quando normalmente é o contrário).

Desafie Seu Paladar

Pois boa parte destes preconceitos não chega sequer à página dois, se testados na prática. Quanta gente não come, sem saber, algo que acreditava detestar, e se surpreende ao descobrir que aquilo é muito bom?

Há quem coma carne bovina mas jamais o rabo, por não gostar de “miúdos”. Nem se dá ao trabalho de pensar que rabo não é uma víscera: é apenas carne, bem entremeada num osso labiríntico que lhe dá ainda mais sabor.

Há quem coma torresmo com prazer, mas não come pele de frango nem de peixe (“não gosto de pele”) – sem se dar conta de que podem ficar ruidosamente crocantes e saborosas (e ainda mais leves do que o torresmo suíno, que tem pele também).

Carne de rã? Difícil achar algo mais delicado, de sabor mais sutil, flertando com frutos do mar. Um desafio: duvido que alguém prove (de preferência sem saber de antemão o que é) a carne das coxinhas de rã e não queira repetir – muitas vezes. Só precisa esquecer que elas eram caçadas pelas crianças nos brejos pobres que hoje viraram avenidas das cidades.

E pra quem gosta de picanha, que tal provar sua gordura, especialmente se bem bronzeada pelas labaredas da churrasqueira? Confesso que não consigo comer muito, mas sem dúvida tem um sabor especial, mais interessante que a carne sem graça que ela guarnece.

Experimente Novos Sabores

A língua – de boi, de porco, de cordeiro, de bacalhau (sim, uma iguaria!) – é outro alimento que, no caso de quem “não comeu e não gostou”, vale a pena provar (traz o sabor do animal, e com uma textura única). E o pé de porco? É uma glória de várias cozinhas, especialmente a francesa (na versão desossada, recheada e empanada é uma glória dos glutões), mas também famoso no zampone italiano, também recheado.

Se você chegou até aqui, talvez esteja enojado com o desfiar de coisas que parecem desagradáveis; mas quem sabe ganhou coragem de provar, ao menos uma vez, ao menos uma destas comidas de pobre (que em países ricos da Europa ou da Ásia são reverenciados como iguarias)?

Fonte: https://www.uol.com.br/nossa/colunas/josimar-melo/2025/12/10/rabo-pele-coentro-pe-de-porco-coxa-de-ra-qual-deles-voce-ama-odiar.htm

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