São Paulo é a cidade com mais pessoas negras fora da África em números absolutos: dos 11,4 milhões de habitantes, 43% se consideram de cor preta ou parda. Por isso, é fundamental conhecer a cultura negra paulista que segue viva na música, na arte e na gastronomia.
Guia Negro e a Consciência Negra
Guilherme Soares Dias, fundador da plataforma de afroturismo Guia Negro, destaca a importância do Dia da Consciência Negra. A data celebra a resistência do povo afrodescendente à escravidão e promove a reflexão sobre o racismo e a valorização da cultura afro-brasileira, além de homenagear Zumbi dos Palmares.
Dias lidera a iniciativa que reuniu 25 autores para registrar memórias da cidade no livro ‘São Paulo Negra’, lançado recentemente. A publicação fala sobre lugares, personagens, cultura e movimentos, temas explorados em tours pela capital.
“Cada um deles conta um pouco da história, a partir da perspectiva das pessoas pretas e pardas, que contribuíram para toda a riqueza econômica e cultural da maior cidade do país”, pontua.
A seguir, o fundador compartilha 8 passeios para conhecer São Paulo sob esse ponto de vista. Também apresentamos outros roteiros que reconhecem o protagonismo negro.
Fé e história
Um dos espaços mais simbólicos da presença negra em São Paulo, a Capela dos Aflitos, fica na Liberdade, bairro que antigamente acolhia o Quilombo da Saracura. Erguida nos anos 1770, fazia parte do cemitério dedicado a pessoas pretas e indígenas.
“Invisibilizada por muito tempo, hoje é reconhecida como importante local de memória e resistência”, comenta Dias. Já a Praça da Liberdade recebe a estátua da Madrinha Eunice, que fundou a escola de samba Lavapés, a mais antiga da cidade.
Itens tradicionais
No entorno da Praça da República há diversas barracas de produtos africanos, que vendem de máscaras ornamentais a tecidos e turbantes. Perto dali, a Galeria do Reggae (R. 24 de Maio, 116, República) reúne lojas que comercializam de roupas a laces, além de restaurantes especializados. “Na praça, todas as segundas-feiras, à noite, ocorre também a cerimônia de muridismo, islâmica”, cita o consultor em diversidade, numa referência à religião praticada por imigrantes senegaleses.
Ritmo dançante
O Anhangabaú reúne bares e endereços que atraem muita gente conectada à cidade e à ancestralidade. Nas noites de sexta-feira, a animação aumenta com aulas de samba-rock, ritmo que nasceu da população negra paulistana. “Entre batuques, passos e encontros, o Anhangabaú segue como território de convivência, resistência e celebração da identidade afro-brasileira”, defende o fundador do Guia Negro.
Entre livros
A Livraria Africanidades (R. Paulo Ravelli, 153, Cachoeirinha), na zona norte, é outro endereço de encontro, que foca na formação e no fortalecimento da identidade negra. “Criada para ampliar o acesso a obras de autores africanos e afro-brasileiros, valoriza o pensamento preto e promove rodas de conversa, saraus e lançamentos que celebram a produção intelectual da diáspora”, descreve Dias.
Contra intolerância
Comandado por Mãe Wanda d’Oxum, o terreiro de candomblé Ilè Ìyá Mí Òsún Mùíywá é tido como o mais antigo da Casa Verde. A vivência no bairro e à frente do santuário fez a líder se interessar por política e pelo ativismo contra intolerância religiosa. “Sua ligação com o samba a levou a fundar o Afoxé Omo Dadá, ou Filhos da Coroa de Dadá, que abre o carnaval no sambódromo há décadas”, conta.
Mulheres à frente
Em Artur Alvim, zona leste, o Espaço Cultural Adebanke (R. Durande, 175) é um centro de referência afro-brasileira contemporânea. “Criado por três mulheres negras para valorizar as expressões artísticas negras, promove oficinas, shows, festas, feiras, debates e formações que fortalecem o protagonismo da população preta nas artes e na economia criativa”, destaca o curador.
Centro criativo
A Agência Solano Trindade (R. Batista Crespo, 105, Campo Limpo) é um centro de cultura, arte e economia criativa, com restaurante, coworking e loja colaborativa. “Seu nome é uma homenagem ao poeta, ativista e militante negro pernambucano, reconhecido pela atuação na valorização da cultura afro-brasileira”. No mesmo endereço fica o restaurante Organicamente Rango, comandado por Tia Nice, que explora alimentos orgânicos no cardápio.
Pratos tradicionais
Aberto há quase 20 anos, o Biyou’z Restaurante (R. Barão de Limeira, 19, República; e R. Fernando de Albuquerque, 95, Consolação) foi fundado pela chef camaronesa Melanito Biyouha, mas serve comida de outros países africanos. “Peixe e banana-da-terra compõem vários pratos, assim como o fufu, o bolinho de farinha de arroz, base da comida africana. Para beber tem suco de baobá com melancia”, recomenda Guilherme.
Fonte: https://www.uol.com.br/nossa/noticias/redacao/2025/11/19/programe-se-um-roteiro-especial-para-desbravar-sp-no-feriado.htm
