Você pode conhecer Néli Pereira pelos drinques, pelo livro e até mesmo pela rádio, mas talvez não saiba que uma palavra sempre norteou sua vida, muito além das profissões (sim, plural): Brasil.
Não qualquer um, e muito longe dos estereótipos. Desde sempre.
Nascida em Curitiba, a dona do Espaço Zebra, em São Paulo, resgata as influências da infância.
Uma tia que era dona de um terreiro de umbanda, de onde veio o interesse por ervas e bebidas como oferenda. Uma avó – a vó Isaura -, que abençoa em uma foto o bar de Néli, e, sem dinheiro, tratava todos os males com combinações de plantas. Um pai que, além de um excelente bebedor, fazia coleção de uísque, amava uma festa e era radialista.
Ao lado dele, Néli visitava, por exemplo, a comunidade que plantava cataia, outra onde tinha fandango.
Eu nunca achei que o Sul fosse um lugar isento de cultura brasileira. Pelo contrário, achei que a gente estava bastante inserido até. Mas eu conhecia muito pouco do Brasil, né?, diz.
Brasil de academia
Aos 17 anos, Néli começa a trabalhar numa rádio que só tocava música brasileira, conquista um programa ao vivo e entrevista do flautista Altamiro Carrilho a cantora Dona Ivone Lara.
“Começo a estudar o Brasil pra fazer as entrevistas. E eu me apaixono, absolutamente. Entre as pessoas, pelo Brasil, pelas narrativas. Aquilo me dá um… sério, me arrepia de lembrar”, descreve.
Mais tarde, Néli se especializa em semiótica da cultura, orientada por Décio Pignatari e começa a estudar identidade cultural, o que faz no Brasil.
O Brasil era uma inquietação, assim, que eu não dormia mesmo. Era aquilo que eu queria saber. Descobri uma corrente de pesquisa que tinha começado na Inglaterra. E aí eu falei, bora!, lembra.
Com uma bolsa para mestrado em estudos culturais latino-americanos, Néli parte para Londres.
Alguns se perguntam: “mas estudar Brasil na Europa?”. De Curitiba, com a internet ainda como uma fagulha, na Inglaterra os estudos foram mais possíveis que na USP, por exemplo.
“Aí a vida meio que vira de ponta cabeça, porque a gente estudava história de um jeito muito enviesado no Brasil e a gente ama muito a teoria na academia”, discorre.
Após dois anos de nova casa em um novo país, Néli ingressa na BBC: “não falo mais só de Brasil, mas eu falo do mundo pro Brasil e do Brasil pro mundo”, conta. Na época, começo dos anos 2000, Melissas e Havaianas se espalhavam pelo mundo. O Brasil estava na moda.
Em 2009, era hora de voltar. Crise financeira global, xenofobia, entre os motivos.
Bartender por acaso
De volta ao Brasil, agora em São Paulo, fica entre BBC e Band News, onde coloca o país e sua identidade em pauta. Em 2012, “o Renato fala ‘vamos abrir um galpão no centro da cidade para ter um bar’ e resolve abrir o Zebra.”
Renato é o artista plástico Renato Larini, companheiro de Néli há 26 anos.
Inspirado nas galerias híbridas de Londres, e em seu Peixe-Cachorro, na Curitiba dos anos 80, nasce a galeria, bar, ateliê – e casa do casal – Espaço Zebra.
Com a memória do pai e um conhecimento de vinho graças à sommelier Alexandra Corvo, além de um amigo que fazia cerveja no Sul, Néli levanta este espaço independente.
Os drinques vieram um ano depois.
“Achei tão legal porque era um jeito de servir diferente, tinha um tíquete médio melhor, era bonito. E a gente tinha como fazer. Pelo mundo, as pessoas estavam fazendo da ‘terra ao copo’, usando do terroir, os coquetéis apotecários”, lembra.
Nos bares, botecos e zona cerealista, Néli foi atrás do que era vermute, gim, cachaça, catuaba, jurubeba, carqueja…
Fui testando coisas sem um conhecimento muito grande de coquetelaria clássica. E eu patinei muito. As pessoas também não eram muito abertas, porque, no fim das contas, eu era uma jornalista que tava virando bartender. Tava num lugar meio espinhoso, assim. E com uma pesquisa que ninguém botava muita fé.
Em tempo em que importavam casca amarga para fazer bitter, Néli estava falando de carqueja.
“Comecei a fazer um mapa na minha cabeça e divulgar para mais gente usar”, conta. Fosse em forma de carta de drinques ou aulas, Néli bebia e compartilhava o Brasil mais e mais.
Em Paranapiacaba, o uísque tropeiro. No Instituto Auá, as frutas nativas da Mata Atlântica. No Pará, uma loucura amazônica. Da vida toda, uma carta em homenagem aos orixás e as entidades da umbanda. Outra de quilombolas, ribeirinhas, caiçaras.
“Eu fiz o diabo nesse lugar aqui”, se orgulha.
Em 2017, de volta à BBC, Neli tem a oportunidade de voltar a Londres e viajar o mundo para implementar formatos de programas diferentes.
“Um mês antes de ir, eu decidi não ir. Porque eu queria fazer essa pesquisa aqui”. Arrependida? “Não. Quer dizer… me fodi, né? Os trabalhos não vieram, o Zebra não bombou”, conta.
Não bomba, mas resiste
Quando fala, mais de uma vez, que o Zebra nunca hypou, Néli não deixa a serenidade e deve essa não-explosão a uma série de fatores.
“Quando a gente era uma novidade, tivemos bom movimento e estávamos cheios de gás. Sem braços, além dos meus e do Renato, tinha essa coisa de ser pequeno mesmo”.
Em algumas noites lotou, mas não era exatamente o público esperado. Quando surgem os drinques, fica mais caro e muda de novo a frequência. Sempre independentes, sem investidor, sem contrato com marca, sem nada.
Falando pelo Zebra e por mais bares, Néli desabafa: há pressão pela moda e por carta nova todo semestre, criar novos conceitos, chamar pessoas – e, como sabemos, a bolha se alimenta do que sai nas redes, nos jornais, nos portais.
Tô aqui 13 anos e não vou fazer uma carta nova por mês. Já tentei fazer e me odiei por isso. Não sou eu. Se eu descubro um ingrediente novo agora que eu vou pra Belém, eu volto e faço uma carta. Eu fico em Cariri, eu volto e faço uma carta. Eu apresento coisa nova quase toda semana. Se você vier aqui e não tiver uma coisa nova, tem 120 plantas infusionadas ali pra gente descobrir junto, descreve.
Há, sem dúvida, um desânimo na fala. Mas também uma confiança que Néli conta ser recente.
“A gente não está em lista de melhores bares, nem do mundo, nem de São Paulo. Tenho uma pesquisa sólida, faço coquetéis com ingredientes que um monte de gente conheceu através do meu trabalho, influenciei a cena da coquetelaria e simplesmente as pessoas não falam de mim. Ou falam muito raramente. Acho bastante surpreendente”, diz.
Sobre a recente crise do metanol, Néli vê uma chance do público não delegar a escolha dos bares às mídias, mas à própria confiança em tal e tal negócio.
Viva nas lives
Na pandemia, entre a experiência de jornalista e a síndrome de impostora que cercava a carreira como bartender, Néli se viu com um belo bar e um estoque numa casa fechada. Era hora de ir para as redes falar de Brasil.
De Dia do Sertanejo à crise do dendê, os temas eram diversos. Foi um dos primeiros lugares do país a se falar de moderação no consumo do álcool, algo que, na época, parecia estranho vindo de alguém que vivia do beber.
Mas era justamente fruto de um santo detox que Néli implementou na própria rotina em 2017: percebendo que estava bebendo todo dia, decidiu parar por um mês. Desde então, são três meses liberados, um mês a seco (de álcool, pois os drinques zero também são um talento da bartender).
Durante o isolamento, os dias foram separados em segunda da moderação, terças sobre ingredientes brasileiros, quarta com convidados, quinta com temas brasileiros, sexta era dia de “visitar” seguidores com receitas de drinques com o que tivesse disponível. E domingo era o nosso querido Domingão do Balcão. “Começou num domingo de Páscoa, abril de 2020, com drinque de chocolate”, lembra.
Na mesma época, Néli levou a pesquisa do Brasil por trás das bebidas à Companhia das Letras, escreveu um livro na pandemia e em setembro de 2022 era lançado o “Da botica ao boteco: plantas, garrafadas e a coquetelaria brasileira.”
Na pandemia, as marcas entenderam que eu era uma pessoa que falava de bebida, de cultura. Aí lanço o livro e crio essa comunidade de gente que começa a se interessar pelo meu trabalho. Entendi que eu influenciei uma nova geração inteira de bartenders”, diz.
Néli também atribui ao seu trabalho a aproximação entre bares e pequenos produtores. “Criei essa rede também, que depois os bares começaram a usar muito. A coisa mudou e entendi que minha pesquisa tinha um valor pra uma nova geração.”
O Zebra, em 2022, reabriu aos mesmos moldes de antes da pandemia: pouco braço e cada vez mais vontade de falar sobre o Brasil, “mas não necessariamente só sobre o Brasil das bebidas”.
Exótica o caramba
Alguns clichês passaram a chamar atenção de Néli a cada entrevista que dava durante a promoção do livro: “Brasil profundo” – “onde o Brasil é raso? Precisa sair de onde está para falar de Brasil”, pergunta – e “coquetelaria exótica”.
Vocês estão reproduzindo desde 1500? O exótico é o que vem de fora. Exótico é fazer drinque com lichia, yuzu. Exótico é ficar trazendo técnica de fora sem entender as técnicas que a gente tem aqui, crava.
Não tem jeito: Néli quer mais e mais Brasil. Num próximo livro, abordará as limitações dos estereótipos do Brasil, o “brazilwashing” das marcas. Num próximo momento, será uma plataforma Gogó, Goró e Borogodó.
Gogó vindo de quem fala, Goró de quem bebe e faz beber e Borogodó? “Ser sempre sobre o Brasil”, decreta.
Aulas presenciais no Zebra, podcast com público e furar bolhas estão no horizonte.
Me incomoda demais a coisa de eu ser a menina dos drinques. Preciso que as pessoas entendam que vai além disso. Que não existiriam drinques se não existisse o Brasil pra mim.
*Trilha sugerida para harmonização com essa coluna: “A Menina Dança”, Novos Baianos.
Quem quiser bater um papinho, sou a @sigaocopo no Instagram.
Fonte: https://www.uol.com.br/nossa/colunas/siga-o-copo/2025/12/15/neli-pereira-esta-com-sede-de-brasil-exotico-e-drinque-com-lichia.htm






