Há 50 anos, em 24 de agosto de 1975, João Pessoa viveu um dos momentos mais trágicos de sua história, justamente em um dia que deveria ser de celebração.
Dia de Festa que Virou Tragédia
Era um domingo, Dia do Soldado, e o Exército havia organizado várias atividades no parque ao redor da lagoa Solon de Lucena, no centro da capital paraibana. Entre as atrações, havia exposição de armas, carros de combate e um passeio de barco na lagoa, usando uma balsa do Exército.
O passeio, que prometia ser uma experiência diferente e empolgante, especialmente para as crianças, atraiu uma longa fila de interessados desde cedo.
Superlotação e Desastre
No final da tarde, os soldados anunciaram que aquela seria a última viagem da balsa. Com medo de perder a oportunidade, muitas pessoas correram para embarcar, resultando em uma superlotação. A balsa, com capacidade para pouco mais de 50 pessoas, partiu com cerca de 200 a bordo.
Logo após partir, a balsa começou a afundar devido ao excesso de peso. O pânico tomou conta e as pessoas se aglomeraram em um lado da balsa, fazendo-a virar completamente. Todos caíram na água, onde a profundidade passava dos cinco metros.
Pânico e Afogamento
Sem boias, coletes salva-vidas e com poucos sabendo nadar, o cenário se tornou caótico. O pânico fez com que as pessoas se agarrassem umas às outras, afogando até quem sabia nadar. O sargento Reginaldo Calixto, que estava de folga, tentou salvar várias pessoas, mas acabou sendo vítima do próprio pânico e morreu afogado.
Resgate Tardio
O Corpo de Bombeiros chegou ao local alertado por um radialista, mas já era tarde para salvar vidas. O resgate dos corpos, feito com redes de pesca, durou mais de 24 horas. No final, 35 pessoas morreram, sendo 29 crianças.
Memórias e Esquecimento
A tragédia foi pouco repercutida fora da cidade devido ao regime militar vigente na época. O inquérito apontou o Exército como responsável, mas ninguém foi punido.
Hoje, a lagoa Solon de Lucena é um parque urbano popular, mas não há nenhuma menção ou homenagem às vítimas. O professor Ângelo Emílio da Silva Pessoa, da Universidade Federal da Paraíba, defende a criação de um memorial para que a tragédia não seja esquecida.
“Eu tinha oito anos e queria muito ir no passeio do barco. Mas minha mãe não achou seguro e não quis embarcar”, relembra Ângelo, que acredita que o memorial é um dever cívico.
Somente os frequentadores mais antigos do parque lembram do que aconteceu naquele domingo ensolarado de 24 de agosto, meio século atrás.
“Eu perdi um colega de escola naquele dia e só não morri porque não consegui embarcar na balsa”, lembra um funcionário do parque. “Todo dia, eu olho para a lagoa e lembro do pessoal se debatendo na água, pedindo socorro. Eu era uma criança e não podia fazer nada.”
Fonte: https://www.uol.com.br/nossa/colunas/historias-do-mar/2025/08/22/tragedia-da-lagoa-de-joao-pessoa-completa-meio-seculo-quase-esquecida.htm